O que chama a atenção do público num vídeo ou num áudio é a colocação de voz, a postura, a naturalidade, o sorriso. E algumas vezes – intromissões de felinos – depois uma montanha de livros e a capacidade de nos fazer viajar pelas palavras de autores consagrados e outros pura (e simplesmente) desconhecidos. Já dei por mim a comprar um livro sugerido pela Roberta, e não me arrependi. Contactá-la foi mais do que um objectivo, não só por falarmos a mesma língua mas por partilharmos paixões inexplicáveis, como o Porto.
Roberta Frontini nasceu no sul de Itália, no paraíso da pasta, do risotto, da doce Julieta. Com formação na área da psicologia e investigadora na área da Saúde, Roberta lançou há quase uma década o projecto FLAMES_MR com uma amiga. Baterista nos tempos em que não se deleita por palavras de Agatha Christie ou Tânia Ganho (de quem leu o último “Apneia” e adorou) e é uma adepta dos nasceres do dia no Alentejo, por onde passou este verão de 2020. Por vezes viaja ao Porto para matar saudades (ah! sim, e levar mais um livro para a sua vasta biblioteca).
FA – Roberta, o que fica de um livro? A primeira frase, o primeiro acontecimento marcante ou a última palavra?
RF – Cada livro é único. Não saberia responder. Há livros onde o que me toca é a escrita. Noutros a história… depende muito.
FA – Apaixonada pelas letras desde cedo, ou foi uma paixão que surgiu com o avançar da juventude?
RF – Desde cedo. Provavelmente a culpa é da minha mãe que sempre leu muito. Por outro lado, também me lembro do meu pai me ler (e inventar) algumas histórias. Tenho vídeos meus onde ainda não falava, com livros na mão (virados de pernas para o ar!!) e eu a ler (a inventar sons na verdade) em voz alta.
FA – Em algumas fases dos livros (fruto da tua formação) defines um perfil mais pormenorizado da personagem que o autor?
RF – Sim… acho que sim. Não é bem um perfil, mas quando aparece uma personagem com uma perturbação mental é comum eu escrever alguns dos critérios de diagnóstico de lado. Mesmo que a personagem não tenha um diagnóstico definido eu costumo sublinhar e colocar de lado o nome da possível perturbação /ou o sintoma.
FA – De todos os autores que admiras, a qual gostarias de fazer duas perguntas difíceis?
RF – Talvez ao Charles Dickens e à Agatha Christie, mas já não o poderei fazer nesta vida (sorrisos!)
FA – É mais difícil ler um livro complexo ou explicar a paixão pelo Porto?
RF – Boa questão (sorrisos!), não sei bem porque a cidade do Porto mexe tanto comigo. Acho-a linda, e as pessoas são maravilhosas!
FA – Se fizermos uma passagem (atrás no tempo) que Roberta vês numa moldura da cómoda da avó?
RF – Fotos de uma menina sempre sorridente mas com um olhar tímido…
FA – Com raízes em Itália, que sensações experimentas numa cidade como Verona?
RF – Eu nasci no sul da Itália, por isso todas as minhas viagens ao norte (Verona, Milão, Brescia, Bergamo, etc.) me deixaram um pouco… insatisfeita (tirando Veneza). Por exemplo, em termos de comida, fiquei um pouco desgostosa. Mas Verona foi uma agradável surpresa até…
FA – Leva-nos agora ao filme “Letters to Juliet”. Partirias numa aventura como a doce Sophia?
RF – Olha, esta pergunta lembrou-me a minha ida a Verona. Na altura em que fui a Verona foi inserido numa viagem que fiz com o meu pai ao norte de Itália. Não estava estipulado irmos a Verona. No avião meti um filme ao acaso e calhou o “Letters to Juliet”. Passado uns dias os amigos onde estávamos hospedes perguntaram se queríamos ir a Verona e eu disse logo que sim. Foi muito interessante estar na cidade depois de ter visto o filme. Mas respondendo à pergunta… claro que sim!
FA – Numa viagem por Itália, que obras te acompanhariam?
RF – Sou uma exagerada, quando vou de viagem levo imensos livros. Tenho o terror de ficar sem nada para ler. Mas quando vou a Itália geralmente não levo nenhum e vou comprando. Na minha última ida lá descobri os livros de Andrea Camilleri que, na minha opinião, devem ser lidos em italiano. O dialeto siciliano, a cultura, as comidas, e a atmosfera de mistério que os livros impregnam são aspetos maravilhosos. Um outro livro que acho adequado é “Pictures from Italy” de Charles Dickens que nada mais é do que um diário das suas viagens por algumas das cidades italianas mais importantes.
FA – O primeiro livro é como o primeiro amor? Não se esquece?
RF – Não… o primeiro livro não se esquece, sem dúvida! Lembro-me como se fosse hoje das sensações que senti com o meu primeiro livro! O primeiro amor já esqueci (sorrisos!).
FA – Perdes-te por uma série da Netflix ou trocavas facilmente por um conjunto de livros de autores que admiras?
RF – Perco, mas troco facilmente! Claro!
FA – No YouTube (entre as montanhas de livros apresentados) mostraste uma Graphic Novel de Anne Frank, fazendo uma viagem no tempo em que leste pela primeira vez. Há livros que voltarias a pegar?
RF – Sim… há imensos livro que eu gostaria imenso de reler. No entanto: “So many books, so little time”. Posto isto, devo dizer que estou a reler alguns livros da Agatha Christie e do Charles Dickens, e releio todos os anos “O Principezinho” (ultimamente tenho relido em outras línguas para variar um bocadinho).
FA – Aguardar por um livro e depois achar a sinopse bem mais interessante que o conteúdo, que sentimentos te invadem?
RF – Pois… publicidade enganosa… fico um pouco enraivecida, e é por isso que tento não as ler.
FA – Deste alguma importância à “polémica” de J.K. Rowling no que se refere à Livraria Lello e que afinal de contas não conhecia e nunca lá tinha estado?
RF – Não. Acho que há coisas bem mais importantes para se discutir nos tempos que correm.
FA – Numa maratona literária, o que é mais incomodativo? As mensagens no WhatsApp ou uma dor de cabeça?
RF – (sorrisos!) as perguntas incessantes que algumas pessoas fazem e que estão explicitamente explicadas nas regras. Bastava lerem as regras.
FA – Do projecto de entrevistas “O teu FLAMES num ano 2019” que conversas foram mais fáceis de conseguir?
RF – Adoro o projeto “O teu FLAMES num ano…”. Espero voltar a fazer em 2020. Não consigo nomear uma pessoa, mas gostaria de dizer que às vezes os autores/personalidades que achamos mais “inacessíveis” são os mais “fáceis”.
FA – A barreira de um milhão de visitas teve um sabor especial?
RF – Confesso que não porque eu sou extremamente despistada com estas coisas.
FA – Que principais entraves encontraram no início do projecto Flames?
RF – Chegar a mais pessoas. No início as redes sociais estavam a começar… por isso aumentar o número de seguidores era difícil. Lembro-me que passamos muito tempo com 6 seguidores…
FA – Na rúbrica “Lembram-se?” conseguimos ver que nem sempre a fama é uma coisa boa. Que história marcou mais?
RF – Tenho de repescar essa rúbrica. É das minhas rúbricas favoritas. Faz-me procurar e pesquisar coisas e faz-me ficar nostálgica. Acho que a história que me marcou mais foi a do “menino da Kinder”.
FA – Que voz convidariam para uma leitura encenada de poesia ou um conto?
RF – Uma pessoa que já faleceu… a minha voz favorita no mundo inteiro: Alan Rickman.
FA – Da esfera dos blogues, quais marcaram? E dos que fecharam, alguns disseste em silêncio “ainda bem…”?
RF – Nunca senti “felicidade” por algum blogue ter fechado… Na esfera dos blogues houve uma altura em que havia muita competitividade. Mas depois quando comecei a integrar-me na comunidade booktuber tive o sentimento contrário e acabei por esquecer um pouco isso. Os booktubers são muito mais simpáticos (desculpem a honestidade). Um blogue de que gosto particularmente é o “Livros e Papel” da Inês. Gosto muito dela.
FA – O silêncio para a leitura ou uma seleção musical distinta?
RF – Silêncio! Gosto demasiado de música e isso distrai-me.
FA – “Se eu pudesse…” – o que te vem primeiro à cabeça?
RF – Passava a vida a ler (muito óbvio, mas foi sincero).
FA – Um livro já foi o mote para um amor?
RF – O mote não… mas sem dúvida que tiveram um papel fundamental 😊
FA – Um dia perfeito tem literatura, Itália e um pedaço de Porto?
RF – Sem dúvida. E música. Mas queria aproveitar para dizer que estas férias tive o privilégio de conhecer melhor o Alentejo, e está a ganhar um espaço importante também no meu coração 😊
FA – Obrigado 🙂
RF – Obrigada eu!
José Correia Guedes nasceu na cidade do Porto em 1946, e fez dos céus o seu “local” de trabalho. Apaixonado por automóveis não conseguiu cumprir o sonho de menino de ser piloto de Fórmula 1, mas confessa ter tido um êxito interessante como músico de rock & roll com a Banda “Os Kondes” que contava entre outros rapazes com Fernando Gomes que viria a tornar-se Presidente da Câmara Municipal do Porto. Embora apaixonado pela área das letras e Humanidades, o seu percurso académico passou pela Engenharia, a música, a paixão pelos automóveis continuaria a captar mais a sua atenção. Foi mobilizado para África durante dois anos e quando regressou tentou a sorte inscrevendo-se na TAP, depois de ser “bombardeado” com a publicidade de uma cadeira do cockpit “Este lugar pode ser ocupado por si”. Na altura, a Transportadora Aérea Portuguesa não dava vazão a tantas deslocações e precisava de pilotos. Inscreveu-se também para Comissário de Bordo e foi aí que começou a viajar e a conhecer o mundo. Rumou aos Estados Unidos da América onde fez o curso do piloto e esteve praticamente quarenta anos em trânsito. Foi sequestrado, escreveu dois livros “Na Rota do Yankee Clipper” e “O Aviador” onde reune 20 histórias com finais cómicos e felizes, uma obra para aerofóbicos. Os que conseguem “voar sem medo” tornam-se viajantes compulsivos. Transportou a equipa do FCP em 2004 trazendo a taça para o Porto. Foi o primeiro comandante da aviação a mudar o “callsign” de um voo para “CHAMPS”. São muitas histórias, e que poderão saber um pouco mais! Quanto a nós, foi uma honra voar consigo, Comandante José Guedes!
FA – Caro José Correia Guedes, de todos os preparativos para uma viagem, quais até aos dias de hoje considera indispensáveis?
JG – Quando trabalhava, era o repouso. Agora tento não me esquecer dos medicamentos!
FA – Numa recente entrevista a Rui Unas no seu podcast “Maluco Beleza” disse não ter saudades de voar. Recorda-se da última viagem como Comandante?
JG – O meu último voo foi do Rio de Janeiro para Lisboa. Aterrei ao nascer do dia debaixo de uma enorme tempestade. A chuva e o vento eram de tal forma intensos que só nos últimos instantes consegui ver a pista. Uff, que alívio!
FA – Quando alguém novo lhe pede conselhos para uma carreira serena na aviação, que guidelines consegue dar?
JG – Penso que nestes tempos que atravessamos já não há “carreiras serenas”. A receita, porém, é sempre a mesma: estudar muito, conhecer bem o avião, respeitar os colegas.
FA – A primeira viagem como piloto é como o primeiro amor, não se esquece?
JG – Lembro-me do primeiro amor, mas não da primeira viagem como piloto. Mas lembro-me muito bem da primeira vez que voei sozinho num avião de treino. Essa é que nunca se esquece.
FA – As noites em claro são o pior da vida de um piloto?
JG – Não! Os fusos horários fazem muito mais estragos. De resto, até gostava de voar de noite.
FA – Como é tomar o pequeno-almoço em casa e três horas depois (sensivelmente) almoçar numa capital como Paris?
JG – Qualquer passageiro pode fazer isso. Com a aviação, o mundo ficou muito mais pequeno.
FA – Viajando atrás no tempo, houve algum tempo em que se tenha arrependido da escolha que fez?
JG – Nunca. Eu não escolhi nada; tive a sorte de ser escolhido. A minha gratidão será eterna enquanto viver (esta roubei ao poeta Vinicius).
FA – É uma das vozes mais cativantes que já tivemos oportunidade de ouvir e um contador de histórias nato. Alguma vez foi convidado para fazer um anúncio publicitário?
JG – Sim. Fiz alguns anúncios na década de 80. Eram muito bem pagos e eu divertia-me com aquilo.
FA – É um confesso apaixonado por música, literatura e viagens. Que livro sugere para uma viagem entre Lisboa e Nova Iorque?
JG – Posso recomendar “O Aviador”? Em alternativa sugiro “Na Rota do Yankee Clipper”, do mesmo autor (Não há entrevistas “à borla”, sabia?)
FA – Voltando aos tempos de meninice do Porto e Vila do Conde, que sonhos tinha o menino José?
JG – O menino José queria ser músico de rock and roll e, mais tarde, piloto de Fórmula 1. Consegui ter uma carreira minimamente interessante como músico, mas falhei estrondosamente o objectivo da Fórmula 1.
FA – Alguém com uma ligação especial ao Porto, como descreve o desafio proposto do chefe de frota para levar o A-330 até Gelsernkirschen?
JG – Era um A340. Uma proposta irrecusável. O Porto é a minha cidade natal e o FC do Porto o único clube de futebol de que fui sócio. Além disso, algo me dizia que aquele podia ser um momento histórico. Foi mesmo!
FA – Tem de memória quantos ilustres levou às nuvens?
JG – Não faço ideia. Transportei centenas de milhares de passageiros de todos os meios e condições sociais. Para mim sempre foram iguais. Eram apenas pessoas que tinha temporariamente a meu cargo.
FA – Estar a trinta e cinco mil pés de terra firme, fá-lo ter uma ligação especial com Deus?
JG – Pensei muitas vezes nisso, em especial durante as longas viagens nocturnas. Olhar para a vastidão do Universo e não entender nada do que por lá se passa, levanta questões angustiantes.
FA – Os programas televisivos que abordam os desastres aéreos são (a seu ver) um programa proibido para os aerofóbicos?
JG – Não, de todo. Acho apenas um paradoxo que alguém que tem medo de voar se divirta a ver programas sobre acidentes aéreos. Mas já me disseram que essa é uma forma dos aerofóbicos justificarem os seus medos. Faz sentido!
FA – A melhor forma de vencer um medo é combatê-lo. Que conselhos dá a quem o contacta e que adorava conhecer um paraíso como a Madeira?
JG – O medo de voar é irracional e não se combate com estatísticas. Têm que ser as pessoas a vencer os seus próprios medos. Costumo dizer que ter medo é um bom sinal: é o nosso instinto de sobrevivência a funcionar. Conheço casos de pessoas que uma vez vencido o medo de voar se transformaram em viajantes compulsivos. Os psicólogos sabem explicar o fenómeno.
FA – De todos os aeroportos em que esteve, qual o mais confuso? E o mais moderno?
JG – Confuso? Lisboa, em pleno verão. É o caos absoluto. Nos mais modernos escolheria o Dubai.
FA – Num voo turbulento, o que é para si pior ter: um passageiro em pânico ou uma assistente de bordo inexperiente?
JG – Nunca me aconteceu ter uma Assistente de Bordo com medo de turbulência. Tratando-se de passageiros, às vezes uma visita ao cockpit resolve o problema.
FA – Se pudesse voltar atrás no tempo, que pergunta faria ao Almirante Gago Coutinho e a Sacadura Cabral?
JG – Como conseguiram localizar os penedos de S. Pedro e S. Paulo no meio do Atlântico? Com a tecnologia da época, isso não foi uma façanha, foi um prodígio. Têm toda a minha admiração.
FA – Depois do momento do sequestro nos anos 70/80, que momento intenso não esquece?
JG – Gelsenkirchen foi um deles. Uma viagem à Austrália para levar tropas para Timor, foi outro. E mais alguns que não posso contar.
FA – Como se sente por ter sido o primeiro comandante a fazer uma alteração no “callsign” do voo “TP9224” para “CHAMPS”?
JG – Um orgulho muito grande. Às vezes tenho boas ideias.
FA – Como está a ver o regresso do futebol aos estádios sem público?
JG – Futebol sem público é como cozido à portuguesa sem carne. Não tem a mínima graça.
FA – Ainda no mundo do futebol, em 1983 que lhe disse Eusébio da Silva Ferreira a caminho de Roma?
JG – Está tudo bem por aqui, pá?”. O King detestava voar e só no cockpit se sentia seguro. Ainda bem para nós, porque era uma fantástica companhia.
FA – A revista “Sirius” é a menina dos seus olhos?
JG – Não, mas tenho muito orgulho em ter sido um dos fundadores e o primeiro director adjunto.
FA – O “Piratinha do Ar” continua a dar notícias?
JG – Sim, falamos de vez em quando. Gosto de acompanhar os sucessos que vem tendo na vida.
FA – Fernando Gomes teve tanto êxito nos “Kondes” como na Câmara Municipal do Porto?
JG – “Cantava” melhor na CM do Porto porque não tinha de me aturar. Penso que foi ele que deu início à enorme e muito bem sucedida transformação da cidade do Porto, hoje uma das mais bonitas e interessantes da Europa.
FA – Num podcast ligado à aviação, que três pessoas convidaria para uma hora e meia de conversa?
JG – Comandantes Silva Soares, John Casqueiro e José Gil Menezes. Infelizmente já nenhum se encontra entre nós. As três personalidades mais fascinantes que conheci em toda a minha carreira na aviação.
FA – Uma noite ao piano corresponde a uma viagem transatlântica?
JG – Uma noite ao piano é uma noite de paz e elevação. Não chegamos ao fim cansados e com as horas trocadas.
FA – O Porsche 356 tem histórias para fazer um novo livro?
JG – Já fiz. Existe uma História dos Porsche 356 em Portugal que escrevi em colaboração com Luís Sousa. Está online.
FA – Para terminar, e sendo o Comandante José Correia Guedes uma pessoa ligada à área das Humanidades e das Letras, que poema guarda na memória?
JG – “Quando morrer quero voltar para viver os momentos que não passei junto do mar”, Sophia de Mello Breyner.
FA – Se um fã lhe oferecesse uma viagem para dois à escolha, que destino escolheria?
JG – Costumo ter azar. Há muitos anos, numa tômbola de golf, ganhei um fim-de-semana no Funchal. Na altura viajava umas 50 vezes por ano para a Madeira e conhecia a cidade como as minhas mãos. Troquei com alguém que tinha ganho uma subscrição de um jornal inglês. Ficámos ambos felizes!
FA – Obrigado por esta conversa!
JG – Foi um prazer.
Podem seguir o Facebook e o Instagram que tem histórias e imagens deliciosas em:
https://www.facebook.com/cptguedes/
Sempre sonhei descobrir a playlist que Chico Buarque tem em casa. Sempre ambicionei saber um bocadinho mais de música para além das canções tradicionais / comerciais. Há não muito tempo atrás, recebi um convite para assistir a um concerto ao início da noite num espaço aprazível e agradável na minha cidade de Espinho. O cartaz convidava a uma bebida quente e a uma dose extra de respeito pelo músico. Qualquer músico (dos verdadeiros, aqueles com M maiúsculo) merece estar num espaço a actuar e o público presente (que escolheu estar naquele espaço àquela hora respeite o seu momento).
O concerto chamar-me-ia para uma introspecção, um recolhimento, um re-acreditar na música. À minha frente, e sem nada mais que uma voz doce e um violão afinado se encontrava Sarah Dhy – nascida na cidade de Vitória da Conquista, localizada no estado da Bahia. Foi criada em Cabo Frio no estado do Rio de Janeiro e mora atualmente em São Pedro da Aldeia – também no Rio de Janeiro. Foi convidada pela LITERARTE (Associação de Escritores e Artistas com Sede no Brasil e sub-sedes em 18 países) para participar de uma antologia infantil com o tema “A Vida no fundo do mar” com lançamentos no Carrossell do Louvre em Paris e no Instituto Camões em Praga – República Checa. Aceitou o convite e participou com a fábula “As aventuras do bebé de smoking”. Logo depois surgiu o convite para cantar no lançamento e preparou um repertório infantil corrente ao tema da antologia.
Em conversa com a presidente da LITERARTE Izabelle Valadares perguntou sobre a possibilidade de agendar concertos em Praga e Paris pois queria aproveitar a oportunidade e trazer para a Europa um repertório que fez em comemoração aos 60 anos da Bossa Nova (2018).
fotografia ©️ Ronaldo Miranda Fialho
Rita Azevedo (RA) – Olá, em primeiro lugar muito obrigada pelo convite, foi sim uma surpresa muito agradável. Mais do que relatar a minha experiência, gostava de conseguir sensibilizar as pessoas, ainda mais, porque na minha opinião, há muitas pessoas já envolvidas em causas muito nobres, relativamente aos meninos de África. Se acho que há em Portugal muitas formas de ajudar, sim, mas lá a pobreza é extrema e a mentalidade deles é muito diferente da nossa, o “trabalho” no terreno é muito importante.
OF – A primeira fotografia que te fiz e que me recordo bem é de tigre ao peito, com um rabo de cavalo e a sorrir num campo de voleibol. Como tens vivido o renascer do tigre?
RA – Eu adoro essa fotografia! Está acontecer o que eu sempre desejei. Se eu não tive oportunidade de continuar a defender a camisola, espero que, no que diz respeito ao voleibol, as seniores femininas sejam muito felizes! Eu vou, com certeza, acompanhar de perto e festejar cada vitória como se fosse minha. Uma vez tigre, para sempre tigre!
OF – Uma das “desculpas” para esta nossa conversa tem por definição uma entrega a uma causa. O voluntariado causou-te o misto de excitação e medo?
Rita e os amigos de sempre do Centro Wanalea, Kenya |
RA – Sim, foi isso mesmo que senti quando a vontade de ir se tornou numa realidade. A verdade é que me lembro de dizer à minha mãe que gostava de fazer voluntariado fora há muito tempo. Acho que sempre estive à espera de um momento certo e, penso que, a partir do momento que a Inês disse que ia comigo, eu soube que era o que me faltava. Porque a ideia de ir para longe, sozinha, deixava-me inquieta, não sabia como reagiria ao ver tudo o que vimos, sozinha, sem dúvida que foi uma segurança para mim, ir com uma amiga.
OF – Imagino que o número de horas de voo até ao destino te deixou tempo para dormir e sonhar. Ainda te lembras em que pensaste quando a porta do avião se abriu em solo africano? Como foi a despedida em Portugal?
RA – Quando percebi que estava a sobrevoar África senti uma alegria até estúpida (haha!) Quando cheguei a Nairobi era tarde, por volta das quatro e meia da manhã, apesar disso e dos três voos estava muito entusiasmada, lembro-me de pensar “agora sim, é real, estou aqui!”. Não gosto de despedidas, prefiro na altura dizer “até já” e “gosto muito de vocês” rapidinho, porque felizmente a internet facilita a distância. Mas claro, antes de ir, fiz por estar com as pessoas de quem mais gosto.
OF – Quanto tempo durou essa aventura? Em que região estiveste?
RA – Estive cerca de três semanas em Ongata Rongai, Kenya. Numa zona denominada Rimpa, num centro, o Centro Wanalea.
OF – O arrependimento é a confirmação tácita de que fizemos algo que não deveríamos ter feito. Algum momento nessa experiência que desejaste não estar ali?
RA – Não, nunca senti.
OF – O que mais te apaixonou naquelas pessoas?
RA – A felicidade que demonstram tendo tão pouco, e, não me estou a referir a bens, mas sim, ao facto de muitos não terem família e de nem saberem de onde vieram.
OF – Bob Marley diz que o sorriso é a curva mais bonita de uma mulher. Imagino que o do sorriso de uma criança em África e um abraço à chegada não tem preço.
Os sorrisos que não deixam ninguém indiferente! |
RA – (Haha, boa citação!) . Realmente não tem, estava à espera que fossem simpáticas, mas na verdade são calorosas, e, de uma simplicidade apaixonante.
OF – Um pôr-do-sol em África substitui um final de tarde em Espinho?
RA – Não. A ideia de final de dia para mim é o sol a pôr-se no nosso mar. Mas recomendo vivamente um início de dia, um nascer do sol, em África.
OF – Quase a terminar medicina dentária. Se Portugal fosse um doente que descobririas no raio x?
RA – “Cáries”, algumas bem graves, mas felizmente tratáveis. Somos uns sortudos!
OF – Num mundo competitivo e recheado de intrigas, o que te tira do sério?
RA – Mentiras, omissões ou até falta de frontalidade. Não gosto que me “enrolem”. Prefiro ouvir alguma coisa que não vá gostar, do que posteriormente descobrir que afinal não foi bem como me disseram.
OF – Diz-se que um sonho sem acção é fantasia. De todos os sonhos qual esperas ver realizado a curto prazo?
RA – Com esta viagem ao Kenya, concretizei um sonho. Preciso de mais tempo para escolher o próximo, não consigo responder agora.
OF – Imagino que tenhas levado contigo objectos que te dizem muito. Sem querer entrar na privacidade, o que não te perdoarias de ter esquecido?
RA – Três fotografias físicas das pessoas de quem mais gosto, ando com elas para todo o lado.
OF – Que canções ecoaram em ti durante o dia longe de casa?
RA – Sinceramente dei por mim a cantarolar as músicas que os meninos do centro ouviam, nomeadamente a “Good Life – G Easy & Kehlani”, até porque repetiam e repetiam as mesmas ao longo do dia (haha!). Mas nos meus momentos “The Blower´s Daughter” – Damien Rice.
OF – Se tivesses que dar um título a esta experiência qual seria?
RA – “Mararafiki” – significa amigos em “Swahili” a língua oficial do Quénia. Foi o Scott, um menino de sete anos que me ensinou e faz sentido, porque durante três semanas criaram-se laços e eu senti-me uma pessoa próxima de todas as pessoas do centro, e, vou preocupar-me para sempre com eles.
A convidada do primeiro “Obturar Falando” nasceu no Porto a 20 de Outubro de 1995. Oriunda de uma família musical (como poderão ler mais a baixo na entrevista) – Helena Kendall foi a voz escolhida pelo compositor João Só que lançou entre outros “Sorte Grande” com Lúcia Moniz ou “Vai por mim” no álbum que assinou a meias com Miguel Araújo Jorge (Mendes & João Só). À semelhança do que aconteceu em 2012 – a Rádio e Televisão Portuguesa – lançou o convite a 10 autores e assim nasceu o tema “Andamos no céu” uma balada de amor que promete ecoar na cabeça das pessoas que a ouvirem e no coração dos mais apaixonados.
Helena estará acompanhada em palco da sua guitarra e por um coro. Uma das suas citações preferidas é “Now I Know we are the lucky ones” (Agora sei que somos os sortudos). Apaixonada pela vida tem um enorme sentido cívico o que a levou a uma missão solidária em Cabo Verde. Convido-vos a conhecer um pouco mais da voz da canção nº 5 da segunda semi-final do Festival Da Canção 2017: Helena Kendall. – Helena, como o nome da canção indica, “andas no céu”? Sem dúvida que sim, em todos os sentidos. Apesar de ter os pés assentes na terra no que toca a sonhar, gosto muito de o fazer e talvez por isso seja tão distraída. Este “andar no céu” refere-se também a um estado de paixão e felicidade com o qual me identifico todos os dias. – A música entrou na tua vida há quanto tempo? A música entrou na minha vida relativamente cedo, sem que eu tenha dado por isso. Tenho uma família muito musical e sempre foi natural cantarmos cá em casa. Comecei pelo piano mas ao fim de alguns anos não quis continuar. Só mais tarde, pelos dezasseis anos é que me ofereceram uma guitarra e sozinha, pouco a pouco, comecei a tocar e foi aí que descobri a minha voz. Já gostava bastante de escrever por isso foi uma questão de tempo até juntar tudo para criar os meus originais. – A primeira vez que te ouvi foi na Fnac e recordo-me de um tema teu sobre uma aventura como voluntária. Acreditas que o nosso caminho leva-nos a palcos assim? Não é por acaso que esse tema, “Saltiness”, foi o primeiro que compus, precisamente durante a missão de voluntariado que fiz em Cabo Verde. Representa uma parte muito importante de mim e da minha vida, que é a entrega ao outros. Para mim a música é isso, uma ferramente simples mas poderosa que me permite chegar mais perto de quem me rodeia e transmitir muitas ideias e estados de espírito. Acredito que a música faz mais sentido quando tem por base bons valores e ações e sinto que fiz um bom caminho até agora, com muita sorte à mistura. – Em relação a festival da canção: José Cid e Lúcia Moniz são as tuas maiores lembranças. Quais as expectativas para esta segunda semi-final? Espero, acima de tudo, que haja muita qualidade musical. Tenho muita curiosidade em conhecer as restantes canções e tenho a certeza que será um bom recomeço para o concurso português. – Vais estar com uma guitarra em palco e acompanhada por coro. É um regresso aos tempos dos “Meninos do Coro”? Pode dizer-se que sim. É uma fórmula que me deixa confortável e que pude explorar graças ao grupo “Meninos do Coro” do qual faço orgulhosamente parte. Foi assim que sempre me vi em palco e que ultrapassei as minhas inseguranças. – Quais são as tuas referências na música em Portugal? E no Mundo? Começando por Portugal tenho obrigatoriamente que mencionar o Miguel Araújo por ser uma grande referência como músico e como pessoa. Outros nomes como António Zambujo, Luísa Sobral ou Tiago Bettencourt fazem parte da minha playlist diária, sem esquecer o grande Rui Veloso. Também ouço muita música internacional e desde que me lembro que tenho o John Mayer a ecoar na minha cabeça. Depende um bocado do estado de espírito mas passo muitas vezes por álbuns completos do Ben Howard, Bob Dylan, Mumford and Sons.. Ultimamente tenho cantado Chico Buarque, Mallu Magalhães e também Marcelo Camelo. Podia continuar a lista interminável mas estas são talvez as minhas prinicipais inspirações. |
Contacte-nos já e peça o seu orçamento sem compromisso.
Telf.: +351 916 894 653
Francisco Azevedo: francisco.azevedo@focalpoint.pt
Pedro Fonseca: pedro.fonseca@focalpoint.pt